
"No fundo, bem lá no fundo do corpo,mora a alma. Ainda não houve quem a visse, mas todos sabem que ela existe. E não só sabem que existe, como também sabem o que lá tem dentro.Dentro da alma, lá bem no centro, pousado numa pata está um pássaro. E o nome do pássaro é o Pássaro da Alma. Ele sente tudo o que nós sentimos:quando alguém nos magoua, ele agita-se para lá e para cá, em todos os sentidos do nosso corpo,sofre muito.Quando alguém nos chama, o pássaro põe-se logo à escuta da voz, a fim de reconhecer que tipo de apelo é.Dentro do corpo, no fundo, bem lá no fundo, mora a alma. Ainda não houvesse quem a visse, mas todos sabem que ela existe. E ainda nunca, nunca veio ao mundo alguém que não a tivesse. Porque a alma entra dentro de nós no momento em que nascemos e não nos larga -nem uma só vez - até ao fim da nossa vida. Como o ar que o homem respira, desde a hora em que se nasce até à hora em que se morre.Decerto querem saber de que é feito o pássaro da alma. Ah, isso é fácil: é feito de gavetas. Existe uma chave própria para cada gaveta e só o pássaro é capaz de as abrir. Como? com a segunda pata. O pássaro está pousado numa pata, e com a outra roda a chave da gaveta que quer abrir. Puxa pelo puxador, e tudo o que está dentro da gaveta sai em liberdade para dentro do corpo.E como tudo o que sentimos tem uma gaveta. Até uma gaveta que raramente abrimos, a gaveta dos segredos mais escondidos.Às vezes uma pessoa pode escolher e indicar ao pássaro as chaves a rodar e as gavetas a abrir.E outras vezes é o pássaro quem decide. Mas por vezes o pássaro por vontade própria faz o contrário do que pedimos, como por exemplo: quando pedimos para abrir a gaveta do silêncio e este abre-nos a gaveta da fala e aí desatamos a falar sem querer. Acontece o mesmo quando temos ciúmes sem qualquer motivo. Ou que estragamos justamente quando queremos ajudar, isto porque a sua gaveta favorita é a do desassossego.O mais importante é escutar o pássaro. Pois acontece que o pássaro chama por nós e nós não o ouvimos. É pena ele quer falar-nos de nós próprios, dos sentimentos que estão encerrados nas gavetas.Há quem o ouça muitas vezes, há quem o ouça raras vezes, há quem o ouça...Uma única vez na vida."
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